Delírios de Ophélia

O canto de Capitu

Capitu

Sim, o nome dela é Capitu

Não a Capitu de Machado

Mas a minha Capitu

A mulher que inventei

E que amei até o meu último suspiro

Deste sopro chamado vida

Custou-me anos

Entender que Capitu

É condor

Não passarinho

E eu no ápice da loucura

Da ilusão amorosa

Coloquei-a na gaiola

Pobre de mim!

Capitu vestiu-se de tristeza

E seu canto tornara-se melancólico

Como um lamento

Já não sorria

Até emudecesse-se de vez

Eu sofria calada o seu sofrimento

Embora soubesse que eu o provocara

Capitu estava presa

Sufocada

Enclausurada no meu amor

No amor que sequer

Perguntei se ela gostaria de receber.

E assim, em prantos,

Conheci verdadeiramente Capitu

E me reconheci

Através dela percebi

O pobre diabo que sou

Que nunca soube amar de forma livre.

Caminhei até a gaiola

Abri

Capitu estava livre

Sorriu-me tristemente

E voou para onde meus olhos não pudesse vê-la

Doía-me saber de seus pousos em outros ninhos

Doía-me ouvir seus cantos

Feliz

Doía-me vê-la tão livre

E eu tão presa

Talvez fosse por isso que a amava tanto

Mas não sabia lidar com tanta liberdade

As outras souberam

E eu aqui enclausurada

Definhei

Até que, finalmente,

O sineiro dobou-se para mim.

Uma lágrima derramada das pálpebras de Capitu

Num misto de lamento e alívio.

Na lápide escrita a pedido:

Amou errado, mas amou na vida.

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