Delírios de Ophélia

Alma Gêmea

Quando entrei naquela cozinha, você sorriu para mim, sorri de volta. Instantaneamente te reconheci, não sabia como, tampouco de onde, menos ainda o porquê daquela sensação, mas estava certa de que já havia visto teus olhos verdes em algum outro lugar, talvez tenha passado por você na rua, talvez tenha visto na balada. Demorou um tempo, meses, até eu perceber que não era desta vida.

Quantos déjà vu tivemos? Quantas vezes completamos a frase uma da outra? Quantas vezes deciframos pensamentos, sentimentos, vontades?

Afinidade musical, Chico, Elis, Pink Floyd, Guns, ou até mesmo aquela música brega dos anos 80 que a gente morre de rir enquanto fazemos palhaçada na cozinha. As músicas que te apresento e que você nunca gosta, mas eu insisto que são melhores que as tuas só para vê-la contrariada.

As noites de sexta ouvindo nossas músicas sob o céu estrelado de verão, deitadas na rede, você falando sem parar e eu atenta a tudo, lutando para não me perder em suas histórias, em seus olhos… tantas ideias fervilhantes… planos, projetos, todo nosso amor pela literatura. Nossa paixão por vinhos é um brinde à noite.

Ainda assim, demorei a perceber que na verdade havia encontrado minha alma gêmea, não no sentido clichê do termo, mas no sentido espiritual, único.

Talvez seja por causa desse encontro cármico, o encontro de nossas almas, que não estejamos juntas, nem separadas. Você profetizou que quando eu voltasse para a cidade seríamos siamesas e olha no que deu.

São incontáveis as vezes que eu quis me afastar, te deixar. E você, igualmente. Mas mesmo me machucando, mesmo doendo eu estava sempre presente e você nem imagina o quanto já doeu, pois eu sempre mantive meu sorriso para você, ainda que estivesse aos pedaços por dentro.

Demorou para que eu percebesse que eu sentia sozinha, me enganei por muito tempo, que jamais o sentimento seria recíproco. Você é pássaro e em teu voo uma constante, não se contenta com apenas um ninho. Doeu, doeu demais essa constatação, mas foi quando te libertei que me senti livre. Prendi você num sentimento que era só meu, numa história que eu inventei e me apaixonei pela pessoa que criei para mim. Perdoe-me por isso!

Hoje me sinto liberta das amarras que criei para mim. Você está liberta, livre, voando constantemente, pousando de ninho e ninho. Daqui observo admirada com seu desprendimento e coragem.

Nossa conexão magnética permanece forte e inabalável, talvez nosso maior aprendizado. Nos entendemos, simplesmente, às vezes um olhar basta e como as almas gêmeas fazem sempre nos olhamos nos olhos, profundamente. Assim como somos inseparáveis mentalmente; você consegue se imaginar sem mim? Eu já não consigo me imaginar sem você. Embora tenha consciência de que isso irá acontecer, o afastamento naturalmente acontecerá. E quem irá te proteger? Quem irá cuidar de você? você sabe o quanto eu me preocupo contigo. O quanto te quero bem.

As razões que me fizeram gostar de você, teu amor idêntico ao meu por literatura, música e cinema. O teu amor por Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Machado de Assis, camarão, tua fé, tua religião. Embora me cause estranhamento teu gosto peculiar por suco verde.

Gosto de você por você odiar Clarice, azeitona e palmito, embora ache isso muito esquisito. Por quando você toma vodka na balada e me dá cabeçada. E ainda tem esse teu gosto peculiar, para não dizer estranho, para mulher, desculpa mas não podia perder a piada… sendo você tão linda! Disso não gosto, pode me chamar de recalcada, não ligo. Sempre acho que você merece mais e não só merece, como pode.

Apenas não esqueça de tudo o que vivemos, de todo amor e toda dor. Desculpa por todo o mal que te causei, meus excessos, exageros, vontades. Lembre-se dos vinhos, dos projetos, das viagens, de tudo que escrevi para você, das conversas, das risadas, das brincadeiras, da sinceridade, da seriedade, sobretudo do respeito. E jamais se esqueça do dedo amassado!

A você, minha alma gêmea, declaro que tenho a total consciência de que não ficaremos juntas – elas raramente ficam quando encarnadas –  por isso tenho falado tanto em despedida. Mas ainda estamos aqui coladas, não na forma do amor carnal como sugere a consciência coletiva. O fato de ainda estarmos juntas me deixa imensamente feliz e sempre poderei dizer orgulhosa que reconheci minha alma gêmea na multidão.

E hoje, antes de partir, quero que saiba do amor que sinto. Um amor diferente, puro, pleno, limpo, livre, que transcende o amor-desejo… O amor mais puro que já senti nesta vida.

Obrigada por não julgar o que senti.

Obrigada por me permitir te reconhecer.

Obrigada por me permitir permanecer.

Obrigada por estar.

Obrigada por me libertar.

Sinta-se livre! Sinta-se leve!

Eu te amo plenamente, livremente e para sempre!

P.S: Pink Floyd me fez companhia enquanto escrevia!

“How I wish

How I wish you were here

We’re just two lost souls

Swimming in a fish bowl

Year after year

Running over the same old ground

What have we found?

The same old fears

Wish you were here”

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